Contratos mais longos favorecem a oferta

01/08/19

A tendência é de preços mais baixos no mercado futuro e o momento é favorável para a compra de energia

Valor – A demanda por contratos mais longos, com a compra de energia até 2023, vem crescendo no país. O objetivo é fugir da volatilidade de preços e garantir o fornecimento. “Os clientes querem evitar situações como o boom de preços que aconteceu no começo de 2019”, diz Juliana Hornink, coordenadora de negócios da Safira Energia.

Para Juliana, o sistema de energia no Brasil passa por um momento de robustez que favorece o crescimento do mercado livre. “Os reservatórios entraram no período seco com um nível muito mais alto do que no ano passado”, explica. “E a região Nordeste ajuda a equilibrar a demanda com uma boa oferta de energia solar e eólica.”

Com isso, a tendência é de preços mais baixos no mercado futuro e o momento é favorável para a compra de energia. A consolidação desse cenário, no entanto, dependerá do clima. Embora tenha caído de 85% nos anos 1990 para 63%, a participação da geração hidrelétrica na matriz energética do país ainda é alta, e por isso o clima continua a ter um papel importante na determinação dos preços.

Em função do período seco, o PLD (Preço de Liquidação de Diferenças), usado para liquidar toda energia não contratada entre os agentes, deve aumentar nos próximos meses. Na última semana de julho, o preço ficou entre R$ 183,92 e R$ 188,01. “Esperamos um patamar variando entre R$ 170 e R$ 200 até o final do ano, quando deve começar a recuar em função do período de chuvas”, diz Jean Franco, diretor da Smart Energia, consultoria do setor energético.

Meteorologistas apontam que o fenômeno El Niño deve perder a força, o que deve reduzir o impacto sobre o regime de chuvas. Para o ano que vem, de acordo com a Somar Meteorologia, as previsões de chuva estão dentro da média no Sudeste, com chuvas mais intensas e frequentes no Centro e no Norte do país. No Sul, as chuvas podem ser na média, porém a tendência é de que sejam mais irregulares.

Desse modo, o cenário é atraente para quem deseja comprar energia no mercado livre. “Os preços da energia para o começo de 2020 estão de 15% a 20% mais baixos no mercado livre do que no mercado cativo”, explica Franco. O consultor acrescenta que as bandeiras tarifárias devem ser reajustadas em 50%, o que pode aumentar o impacto das variações climáticas para os clientes cativos.

Juliana, por sua vez, observa que as projeções meteorológicas de longo prazo têm menos precisão, e que a consolidação desse quadro dependerá do que realmente acontecerá no fim do ano, quando começa o período de chuvas na maior parte do país. “Pode haver até mesmo uma janela de oportunidade melhor mais à frente”, diz. “Uma entrada forte no começo de 2020 seria importante para manter a robustez do sistema elétrico.”

Em relação ao mercado cativo, Juliana aponta para um momento de equilíbrio na demanda. “No último leilão de energia A-4 da Aneel, a demanda das distribuidoras foi pequena, e as próprias distribuidoras começam a vender excedentes no mercado livre”, diz.

Enquanto isso, os consumidores cativos começam a ter um alívio na conta de energia, em função do acordo entre a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e os bancos para antecipar a quitação da chamada Conta-ACR. Segundo a Aneel, essa medida vai retirar R$ 8,4 bilhões das tarifas de energia elétrica até 2020 e permitir atenuar os reajustes das tarifas em 3,7% neste ano e 1,2% em 2020. “Vemos um reflexo dessa retirada em alguns reajustes de distribuidoras, que poderiam chegar a 10% e foram de 7%”, diz Juliana.

A Conta-ACR foi criada para repassar recursos para cobrir os custos das distribuidoras com a exposição involuntária no mercado de curto prazo e com o despacho de termelétricas entre fevereiro e dezembro de 2014. Para lastrear a conta, a CCEE foi autorizada a contratar operações de crédito com os bancos, ressarcidas pelos consumidores a partir de novembro de 2015, mediante recolhimento de encargo na tarifa de energia elétrica até abril de 2020.

Por Carlos Vasconcellos

Fonte: Valor Econômico

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