Carga: redução esperada, mas o alerta está ligado

18/09/18

As duas revisões para baixo nas projeções de consumo, que somam uma diferença de 1.368 MW médios somente em 2018, refletem o clima atual, contudo, essa incerteza não pode continuar além de dezembro.

O cenário nacional pode ser classificado de diversas formas: complexo, desafiador, desalentador, de desconfiança, entre outros. O reflexo desse sentimento pode ser verificado nas projeções de crescimento da carga no país, divulgada no início de agosto na 2ª Revisão Quadrimestral que revelou uma nova queda, essa mais significativa que a 1ª revisão de abril. As novas estimativas apontaram uma desaceleração mais expressiva do que esperada quatro meses antes. Apesar das definições ouvidas pela reportagem, esses números podem ser interpretados como o resultado direto do momento que o país vive em relação, principalmente, a dois itens: economia e política. E a performance de um está diretamente relacionada ao outro.

O documento elaborado em conjunto entre o Operador Nacional do Sistema Elétrico, a Empresa de Pesquisa Energética e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, foi revisado para baixo pela segunda vez este ano. Ele indicava uma carga de 68.013 MW médios em 2018, um crescimento de 3,7% na comparação com 2017. Em abril, na primeira revisão, caiu para 67.560 MW médios – expansão de 3% – e agora está em 66.645 que representará alta de 1,6% ante 2017 se confirmado o volume, mas é uma expansão 1.368 MW médios menor do que a esperada no início do ano.

Entre as premissas que balizaram a revisão das projeções para o ciclo 2018 a 2022 identificou-se uma reversão brusca das expectativas, a partir de maio deste ano, com redução significativa das projeções de PIB, auxiliada pela greve dos caminhoneiros que impactou a atividade econômica. Consta ainda a interrupção do processo de redução da taxa de juros, com risco de aumento da Selic, bem como, a situação fiscal delicada e a disputa eleitoral que podem elevar o risco-país. Por outro lado, aponta uma recuperação gradual do crédito, contribuindo para o bom desempenho do comércio.

Já a partir do ano que vem o cenário estimado é de maior confiança, o que, segundo o documento, deverá propiciar uma retomada mais significativa dos investimentos a partir de 2019. Destaque é dado para investimentos de infraestrutura, atividade mais aquecida com melhor desempenho no mercado de trabalho que impactará positivamente no consumo das famílias. Mas, um crescimento mais robusto deverá ser limitado pela baixa poupança interna e produtividade.

Resultado das novas projeções de crescimento da carga 2018-2022

De acordo com a EPE, esses números refletem o fato de que a economia brasileira vem passando por um processo de recuperação gradual. Mas o ritmo dessa retomada é mais lento que o esperado. “Houve forte reversão das expectativas do mercado para o crescimento do PIB neste ano, reforçada pela greve dos caminhoneiros que aconteceu no fim de maio, com reflexos no mercado de energia elétrica. Nesse contexto de ajuste do cenário econômico foi necessário rever as projeções de consumo e carga de energia ao longo desse ano. Assim, espera-se uma redução de cerca de 7 TWh em 2022 entre o consumo de energia elétrica da 1ª e da 2ª Revisão Quadrimestral, e de cerca de 1.300 MW médios em termos de carga“, relatou em nota.

Na avaliação do planejador, quanto à questão dos leilões é importante destacar que a demanda do mercado regulado é declarada pelas distribuidoras para cada um dos certames. E que nesses eventos são as concessionárias que declaram suas estimativas de crescimento no horizonte específico dos leilões, seja ele para 3,4 5 ou 6 anos. Portanto, continua, o cenário previsto de recuperação e crescimento do mercado é um indicativo de como a demanda dos leilões se comportará, entretanto, não é determinativo visto que os volumes que são contratados derivam exclusivamente de declarações das concessionárias.

O momento do país e seu efeito sobre a carga, refletiu o secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do MME, Eduardo Azevedo, é uma combinação entre a saída de um período de grande recessão econômica aliada ao ano de eleições gerais. Somente por esse segundo fator já seria suficiente para levar a nossa economia em um ritmo mais moderado de performance porque é histórico esse comportamento ante as incertezas sobre o caminho que o país seguirá no ano seguinte.

Queda das projeções era esperada, mas o planejamento continua a trabalhar com cenário de crescimento.

Eduardo Azevedo, do MME

“As revisões são feitas como uma aferição da previsão anual, essa visão é ajustada a cada quatro meses e este ano em especial tivemos uma estimativa muito maior ante a realidade. Mas essa redução das expectativas já era esperada”, afirmou ele. “Agora esperamos uma retomada um pouco mais intensa após as eleições e que esse ritmo siga até abril do ano que vem, e assim o que está previsto seja o volume adequado em termos de planejamento e dentro do que as concessionárias previram”, acrescentou.

Segundo sua avaliação, ainda estamos no limite do que pode ser contratado em termos de energia nova em leilões para o horizonte até 2022, mesmo com a retração da demanda que está prevista. Em sua conta já estão considerados os A-4 realizados em 2017 e neste ano, projetos que devem entrar em operação comercial no horizonte abrangido pelo documento. Os dois A-6 nesse período estariam fora dessa abrangência por entrarem em 2023 e 2024.

O MME, assegurou Azevedo, já possui indicações que mesmo no mercado livre é esperado crescimento da demanda nos próximos anos. Ele relatou que houve conversas com representantes de diversas associações de indústrias que estão apresentando planos de crescimento. E citou dois desses segmentos: alumínio e papel e celulose.

A opinião do presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, converge com a do MME sobre a proximidade com o limite da contratação de energia por meio de leilões no mercado regulado ante a perspectiva atual de carga que o Brasil apresenta. Porém, lembra que essa previsão é a fotografia que temos do momento pelo qual o país passa. “Precisamos esperar para saber qual será o novo governo e sua visão de política econômica”, comentou ele. “Estamos em uma situação limiar em relação à contratação. Se a carga continuar caindo e as perspectivas ruins continuarem poderemos ter problemas com uma sobre contratação, pois o modelo ainda tem a visão de crescimento contínuo.

Se a carga continuar caindo e as perspectivas ruins continuarem poderemos ter problemas.

João Carlos Mello, da Thymos Energia

Porém, há uma flexibilidade para enfrentar o problema, se ele vier a ocorrer, isso se daria por meio dos dispositivos inseridos com a crise recente. “Podemos voltar a ver esse problema, mas estamos mais bem preparados”, acrescentou.

Qualquer que seja o eleito ao Planalto, analisou, este terá uma missão complexa com todos os problemas econômicos e as necessidades de reformas que o país precisa. Por isso terá que ser um governo rápido em suas ações como, por exemplo, na questão da reforma do marco regulatório do setor elétrico. Por isso, a tendência é de que um crescimento mais vigoroso mesmo deverá ser visto mais claramente a partir de 2020. Para o presidente da Thymos, o ano de 2019 será de reconstrução, apesar de admitir que a economia pode, de uma hora para outra, dar sinal de recuperação e aí a demanda voltar, mas este não é o cenário atual.

Por isso, o MME não vê essa revisão da projeção de carga com grande preocupação. Azevedo, inclusive, revelou que no dia anterior a entrevista concedida à Agência Canal Energia, o ministério recebeu da EPE a versão preliminar do próximo PDE, para 2027. No documento, que ainda precisa ser revisado para depois ser colocado em consulta pública posterior, não há uma grande variação quanto à expansão da capacidade instalada no país em relação à versão atual, indicando que os estudos mantêm, basicamente, as perspectivas de crescimento para o Brasil no longo prazo que já são consideradas atualmente. A única alteração mais relevante será a de separar a biomassa do biogás. Segundo ele, o planejamento para os leilões do ano que vem continua sendo desenvolvido até porque depende diretamente das distribuidoras e de suas declarações de necessidades para o futuro.

Em geral, especialistas de mercado concordam que essa redução da carga apresentada na 2ª revisão adere ao momento da economia brasileira atual. Tanto é assim que no mais recente boletim semanal Focus do Banco Central do Brasil, divulgado em 6 de setembro, e que contém a expectativa do mercado para o desempenho de diversos indicadores econômicos, a previsão de crescimento do PIB está em 1,4%. O governo apontava no início do ano para um índice de expansão de 3%. Enquanto isso, o resultado oficial, que é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, aponta para uma taxa de 1,1% no acumulado dos dois primeiros trimestres de 2018 quando comparados a 2017. Nos últimos quatro trimestres (de julho de 2017 a junho de 2018) a taxa é de 1,4% de expansão.

Na opinião do consultor Celso Dall’Orto, da PSR, as reduções das perspectivas da carga estão ligadas à economia no ano. Ele lembra que a expectativa era justamente a de termos maior crescimento do PIB em 2018 ante o que vemos atualmente. Esse otimismo visto no início do ano era decorrente da possibilidade da implantação de reformas estruturais como a da Previdência e a do setor elétrico, bem como a privatização da Eletrobras, todas paradas e que, ao longo do ano foram fonte de mais crises do que soluções.

Revisões de carga como as deste ano mostram que governo está mais antenado com a realidade do que no passado.

Celso Dall’Orto, da PSR

“Essas revisões de carga podem ser vistas de forma positiva, pois mostra o planejamento mais antenado com a realidade”, destacou. “Víamos em anos anteriores que a economia estava caindo e o planejamento do sistema continuava com perspectivas de crescimento. Esse descompasso causou mais tarde os problemas com as sobras”, recordou.

Para ele, a questão da retração da carga no horizonte nos próximos cinco anos ainda não afeta a demanda de energia no mercado regulado. Mas isso é uma questão de tempo, pois como depende das distribuidoras – e se a economia não apresentar um crescimento mais rapidamente – essa conjunção pode gerar o que chamou de uma ‘não necessidade’ de leilão A-4 no futuro por conta de contratações feitas em anos anteriores. Mas, em geral, esse momento é o reflexo do atual cenário de indefinições eleitorais e que é histórico no Brasil. Dall’Orto lembra que em todo ano de eleição a economia não cresce com vigor justamente porque o mercado fica aguardando para ver qual será o caminho a ser tomado pelo país e assim destravar projetos.

Juliana Chade, gerente de Pesquisa e Estudos de Mercado da Comerc, corrobora essa avaliação e destaca que mesmo com a retração indicada para este ano, as projeções de carga para os próximos anos, principalmente a partir de 2020, que continuam elevadas. “A redução para 2018 foi coerente e está um pouco otimista para 2019. Mas a partir de 2020 o crescimento projetado está maior do que temos de PIB”, comentou a executiva, que classificou os índices de expansão da demanda como muito otimistas.

A gerente da Comerc avalia que o desempenho daqui para frente depende muito do que o novo governo pretender implantar em termos de investimentos. Como o cenário está indefinido, a incerteza é grande quanto ao caminho que o país tomará a partir do ano que vem, ainda mais com os recentes acontecimentos no campo da política.

Projeções menores exigem atenção, mas preocupação não precisa ser exagerada.

André Cruz, da Safira Energia

André Cruz, diretor de Regulação da Safira Energia, é outro executivo que aponta essa retração como uma foto do momento. Em sua análise, o problema é que esse pleito, em especial, chegou no momento em que seria o de melhoria da economia após os dois recentes anos de recessão. Ele destaca que as duas quedas seguidas exigem uma certa atenção do mercado, mas a preocupação não deve ser exagerada. “Depende da melhoria da economia para que a indústria volte a consumir. Agora se tivermos novas projeções de quedas no ciclo de 2019 a 2023, aí a situação pode ficar mais complicada”, avaliou ele ao referir-se a uma eventual sobra de capacidade de geração.

A conjugação de todas as incertezas apontadas leva a um cenário de dúvidas no investidor ou no empresário que de uma certa forma prefere esperar o desenrolar da situação para tomar uma decisão. Seja essa para investimentos em novas plantas ou no aumento da produção. Essa é a análise do presidente executivo da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica, Alexei Vivan. “Não é possível afirmar que teremos novos excedentes de energia, precisamos ver como o cenário se desenrolará com o tempo, mas podemos dizer que essas duas revisões acendem a luz amarela quanto ao futuro próximo. As decisões em relação a novos leilões e crescimento da demanda menor podem afetar sim os próximos certames”, destacou.

Apesar disso, Vivan aposta em uma retomada. Para ele, o cenário melhora de forma efetiva mais para o final de 2019 e somente em 2020 é que poderemos ter uma retomada mais estrutural por conta da reação do mercado, que ocorre de forma mais lenta. Mas, alertou, essa retomada passa diretamente pelo candidato que sairá vitorioso nas eleições do mês que vem. Ele também citou a necessidade das reformas que estão paradas, já no ano que vem, para que a confiança fosse retomada, o primeiro passo para que a economia avance.

Retração das projeções liga o sinal amarelo em relação à expansão do consumo no país.

Alexei Vivan, da ABCE

O sócio da Focus Energia, Carlos Baccan, aponta que esse descompasso entre as projeções e a realidade da demanda já tem um histórico de vários anos. Ele a classifica como estrutural. Em 2012 a previsão de carga para este ano era 11 GW maior do que está sendo verificado. “Havia um viés menor de mercado e mais de política que mostrava apenas crescimento”, definiu ele, que também indica a questão econômica como a responsável pelas duas quedas quadrimestrais seguidas. Além disso, também apontou a indefinição política como um dos drivers para esse ‘pé no freio’ do consumo de energia.

Segundo ele, para o ano que vem não é possível apontar para uma nova revisão expressiva para a carga, seja para mais ou para menos. A tendência, segundo ele, diante do cenário que se mostra é de uma nova redução de cerca de 300 MW médios, que poderia ser interpretada mais como um ajuste do que uma nova retração estrutural. Mas, lembrou, é preciso ver ainda como é que se comportará o mercado consumidor com a proximidade do período úmido e de temperaturas mais elevadas, época marcada pela redução do PLD e maior uso de climatização no país. E isso tudo combinado deixa o cenário que já era incerto, com maior complexidade de projeção, inclusive a elasticidade na relação entre carga ante o crescimento da economia.

Mas, concorda com o fato de que se a economia retoma o rumo ascendente, este fator pode levar ao aumento de consumo em um volume mais acelerado do que a capacidade do país em expandir de seu parque gerador, pois há demanda reprimida em função da capacidade ociosa da indústria que depende de poucas ações para voltar a consumir mais energia.

Retomada da demanda

Na opinião de Azevedo, do MME, assim que a economia voltar a caminhar de forma mais expressiva, a carga deverá apresentar um comportamento diferente do que é visto atualmente. Ele reforça as afirmações do ONS de que o país não tem risco de desabastecimento. E lembra que, se for necessário, as duas fontes que mais crescem no país, a eólica e a solar, conseguem injetar um bloco de energia significativo em cerca de nove meses a um ano para atender em um eventual caso de emergência.

Tendência de preços mais baixos, mas demanda para 2019 continua otimista.

Juliana Chade, da Comerc

Na análise da PSR ainda há uma sobra estrutural que está em 7%, já considerado o fator de fricção que a consultoria calcula. Por isso, a tendência é de que a demanda possa ser atendida ao passo que a economia retome sua atividade. Segundo Dall’Orto, mesmo com um crescimento rápido do consumo. Mas, alertou que se for verificado esse comportamento é necessário que o planejamento esteja atento para atuar na expansão do parque gerador.

Outro ponto central para a retomada é o custo da energia. Ainda é cedo para que se tenha um cenário com mais clareza, mas segundo Juliana Chade, da Comerc, no momento, a sinalização é positiva para o consumidor com perspectiva de redução dos preços. Ela explica que para tomar essa posição são observados três reservatórios de cabeceira, das UHEs Nova Ponte, no rio Araguari, Emborcação, no rio Paranaíba e Furnas, no Rio Grande.

“Quando olhamos para essas três usinas e vemos seus reservatórios em nível bom para essa época do ano já é possível prever que o preço deve ficar mais baixo, senão vão depender das afluências”, explicou a executiva da Comerc.

Previsão de carga em 2012 apontava que consumo este ano estaria 11 GW maior ante o que temos atualmente.

Carlos Baccan, da Focus Energia

Ela apontou ainda fatores como a entrada das linhas do Madeira e a perspectiva de, finalmente, ser resolvida a pendência que limitava o volume de energia que transita por ali, bem como os sinais climáticos dados pelo El Niño, como pontos que podem favorecer a queda de preços. Em paralelo, destacou que a determinação de GFOM pode auxiliar e levar a um menor deplecionamento dos reservatórios em 1,5%, de acordo com os cálculos da empresa.

Mesmo assim, acrescentou, a estimativa de curva ascendente continua muito otimista. “No ano que vem eu colocaria um crescimento de 2,5%, um cenário mais conservador ante o que se espera, mas esse índice vai depender muito do próximo governo”, finalizou.

Fonte: Canal Energia

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