Brasil perderá posição no ranking de energia limpa

22/10/18

País expande geração de fontes como hidrelétrica, eólica e solar, mas ficará atrás de Índia e Alemanha nos próximos anos

RIO — Com a terceira maior capacidade instalada de geração de energia de fontes renováveis do mundo, o Brasil, que hoje só fica atrás de China e EUA, vai perder a medalha de bronze no ranking das economias que mais investem em hidrelétricas, placas solares e parques eólicos. Segundo um estudo da Agência Internacional de Energia (AIE), o país deverá passar para a quinta posição, ultrapassado por Índia e Alemanha em 2023.

Nos próximos cinco anos, a capacidade instalada de energia renovável no Brasil vai crescer 15 gigawatts (GW), passando de 134 GW para 149 GW. Segundo a consultoria Safira, 1 GW é capaz de abastecer 1,5 milhão de pessoas, o equivalente a uma cidade do tamanho de Porto Alegre. Segundo a AIE, o avanço será puxado, principalmente, por pequenas centrais hidrelétricas, com 8 GW novos, parques eólicos (6 GW), plantas solares (5GW) e biomassa (2 GW). Para especialistas, embora o Brasil tenha uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com cerca de 80% de fontes renováveis, é preciso acelerar os investimentos para a retomada do crescimento da economia. A previsão da AIE é de uma alta de 2% ao ano na demanda por eletricidade no país.

Bruno Carrara, do Barros Pimentel Advogados, avalia que o menor ritmo de expansão no Brasil, em comparação com outras nações, está ligado ao baixo crescimento do país. Para ele, o governo deveria incentivar mais projetos para garantir maior oferta de energia barata no momento de retomada da atividade econômica: — O governo tem feito leilões, mas esse esforço poderia ser maior.

Eólica no mar em 2022

Os candidatos à Presidência têm visões diferentes sobre o setor. Jair Bolsonaro (PSL) pretende investir em hidrelétricas de grande porte e retirar subsídios às matrizes eólica e solar. Já Fernando Haddad (PT) quer manter incentivos à geração a partir do sol e do vento, mas prefere hidrelétricas sem grandes reservatórios.

Segundo Marcelo Laterman, especialista em energia do Greenpeace, com a crise hídrica que afetou o nível dos reservatórios de hidrelétricas recentemente, a fonte termelétrica, mais cara e poluente, foi a que mais avançou. O impacto aparece na conta de luz: — Estamos remediando falta de água com termelétricas a gás, carvão e diesel. Temos que diversificar nossa matriz.

Ritmo acelerado

A geração de energia renovável cresce no mundo, mas em velocidade menor no Brasil.

Para Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Economia da UFRJ, não é um grande problema recuar um pouco no ranking:

— O Brasil tem hoje uma matriz elétrica muito mais limpa que a de outros países, que fazem um esforço para limpar suas fontes.

No caso da energia solar, cuja capacidade vai crescer cinco vezes no país até 2023, o governo precisa ampliar o volume de contratação por leilões, avalia Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar, entidade que reúne empresas do setor:

— Desde 2015, o preço do megawatt da solar caiu 60%. Mas o governo precisa reduzir ainda a carga tributária do setor, hoje em cerca de 50%. A matriz eólica, que gera energia a partir do vento, tem recursos para investir 30 GW no país caso o governo decida aumentar o volume de leilões. — Se a economia do país crescer 1% ao ano, o consumo de energia adicional será de 6 GW. Com a estiagem, é a eólica que tem ocupado esse espaço — diz Elbia Gannoum, presidente da Abeeólica, associação do setor.

A geração eólica no mar é a aposta de uma parceria da Petrobras com a norueguesa Equinor. Elas investem num projeto para fazer do Brasil um dos únicos países no mundo a unir a energia dos ventos no mar com a produção de petróleo, assim como ocorre no Reino Unido e na Noruega.

No projeto, que deve começar a operar em 2022, o aerogerador fica em uma base flutuante a cerca de um quilômetro de uma plataforma de petróleo. Parte da energia gerada abastece a embarcação, e o restante vai para o sistema em terra por meio de dutos que conduzem eletricidade.

Mario González, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, explica que a qualidade do vento é melhor no mar: — Há mais previsibilidade, o que permite um melhor planejamento energético em relação ao uso dessa fonte.

Fonte: O Globo

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